sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Montesinho Vivo vs Quercus - parque eólico

Enquanto que a associação ambientalista Montesinho Vivo defende com veemência a ausência de eólicas no P N Montesinho ( ver comunicado), a Quercus por seu lado, tão condescendente como nunca para assuntos desta natureza, surpreende tudo e todos ao concordar com a exploração eólica em Montesinho (ver notícia).

Uma área natural como esta, em remotas terras do interior da península, nunca se viu tão indefesa como agora. As vozes lúcidas dos que vêem um verdadeiro e promissor desenvolvimento sustentável desta região, sem eólicas, são poucas e não se manifestam tanto como as daqueles que navegam na onda de hipocrisia defendendo uma paisagem metalizada que levará a uma desertificação demográfica definitiva destas terras.
Cerca de 21% do território português pertence à rede europeia de reservas ecológicas - Rede Natura 2000, os restantes 79% estão livres para construir parques eólicos...
Em vez de criarmos condições para classificar mais regiões do território, não!...seguimos o caminho errado de coarctar e, em casos como este, de dizimar as paisagens e habitats naturais que nos restam.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Reflexões sobre o futuro de Montesinho e Plano de Ordenamento Proposto

Tendo consciência que qualquer forma ou instrumento de transmissão de conhecimento ou opinião, como um blog, qualquer que seja o seu conteúdo causará sempre algum impacto no receptor. Havendo milhares de receptores a receber, interpretar e transmitir, gera-se uma bola de neve que, em última análise, tem repercussões na sociedade. Posto isto, como blogger sinto que é um dever cívico fazer uma abordagem de temas primordiais para o Parque Natural de Montesinho - o actual Plano de Ordenamento, segundo o meu ponto de vista pessoal, como habitante do Parque e como defensor de uma harmonia socio-economico-ambiental.
Parques eólicos:
tenho uma posição contra.
Razões:
1º - Morte de aves e morcegos:
pelo choque com as pás das eólicas em movimento. Sendo esta área geográfica um local rico em espécies em risco de extinção, como a águia-real, a cegonha-negra, entre outras, cujas populações têm um baixo número de indivíduos e a densidade populacional é escassa; bem como várias espécies de morcegos.
2º - Destruição de habitats:
a construção de caminhos que ligam os aerogeradores entre si, fragmenta os habitats e facilita o acesso das pessoas. Sendo que os locais de implantação dos aerogeradores, são os mais sensíveis e mais ricos em biodiversidade.
3º - Poluição acústica
4º - Poluição visual:
embora os parques eólicos sejam apreciados pela sua imponência e domínio sobre a paisagem, as questões de estética ou expressão artística devem ficar em terceiro plano quando se trata da dinâmica Homem-Ambiente num lugar onde se pretende que os valores naturais dominem e, para isso, até se definem regras sociológicas (legislação) para tal efeito. O Homem tem de deixar o seu "egocentrismo genético" de lado e ficar na plateia como observador, a sua presença só deverá ocorrer para restabelecer o equilíbrio ecológico anteriormente derrubado pelo próprio.
3º - Alto potencial para um turismo sustentável na ausência de eólicas
Uma Paisagem como a de Montesinho que conhecemos hoje, só fará sentido e só será apreciada, enquanto estiver livre de eólicas. Num mundo onde a pressão humana é tão forte e a destruição segue a uma ritmo tão acelerado, cada vez mais são apreciados os refúgios naturais e seminaturais, os quais podem ser "explorados" só por um turismo sustentável nesta era do turismo global. Portanto, esta pode ser uma boa alternativa de futuro para as populações dos concelhos de Bragança e Vinhais. Noto, contudo, que a forma de pensar das populações e dos autarcas continua muito longe desta linha, invocando que o desenvolvimento só se fará à custa de barragens e parques eólicos. Ora Trás-Os-Montes já tem dezenas de barragens e o desenvolvimento que trouxeram é nulo. O interior tem sido, ao longo destas dezenas de anos, sucessivamente discriminado, todos nós sabemos e conhecemos os resultados da diferença de investimento entre o litoral e o interior, a esmagadora maioria desses biliões de euros provenientes da União Europeia foram directos para o litoral. Se o governo quisesse, pela primeira vez, favorecer o interior não o faria com parque eólicos, nem com barragens, os quais são mais uma vez para benefício do litoral superpovoado.
Penso pois, que temos de mudar rapidamente a nossa forma de agir e investir num turismo sustentável, investir no futuro! E esta mensagem deve ser assimilada em primeira instância pelos autarcas.
4º - Falsas promessas de postos de trabalho:
como sabemos a construção de um parque eólico fornece postos de trabalho temporários e a maior parte deles pouco diferenciados.

Em relação à construção de novas vias de comunicação:
os municípios do Parque necessitam de melhores vias de comunicação com Espanha, ligações essas de grande importância para o desenvolvimento de Bragança e Vinhais, que só fazem sentido se se estabelecerem a norte com a A-52, as quais têm de atravessar a totalidade do Parque. Recordo que Madrid está a 3h de distância e as cidades de Galiza e de Castela e Leão a 2h. Ora, o Plano de Ordenamento proposto não interdita, à partida, a sua execução, apenas a condiciona, estando sujeita a aprovação prévia, no qual concordo. Penso que é possível construir um Itinerário Principal, o qual não me parece que cause grandes impactos, se o traçado se fizer por zonas menos sensíveis e importantes em termos ecológicos e se forem construídos corredores ecológicos; se tal não for possível deve-se fazer uma remodelação dos principais acessos, com faixas largas e curvas pouco acentuadas de modo a ser mais rápido e cómodo fazer este percurso.
Existem estradas no parque que precisam recuperação urgente, as quais serviriam de vias secundárias de acesso a Espanha e produziriam uma melhor mobilidade dentro do Parque.
Recuperação do perfil arquitectónico tradicional das habitações
Um aspecto que o Plano de Ordenamento não fala é: a importância da manutenção dos traçados arquitectónicos tradicionais dos edifícios. A maior parte das aldeias estão muitos descaracterizadas, penso que embora a aplicação de uma legislação seja exagerada, a gestão do parque também devia passar por um apoio informativo, técnico e/ou financeiro, por forma a recuperar o perfil arquitectónico destas casas, que enriquecem a região.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

6ª Edição da Norcaça & Norpesca em Bragança

A 6ª edição da Norcaça & Norpesca - Feira Internacional do Norte decorre entre os dias 25 e 28 deste mês no Pavilhão do Nerba em Bragança.

Este ano conta com um atractivo extra, o maior pote do mundo, com uma tonelada de peso, 2,10 metros de altura e capacidade para mil litros, o pote gigante vai cozinhar, ao longo dos três dias do certame, cerca de 700 quilogramas de carne de javali.

Especialmente para os amantes da caça e pesca, aqui fica mais um motivo para visitar esta região.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

RuralCastanea - FESTA DA CASTANHA EM VINHAIS 2007


Tem lugar, em Vinhais, a segunda edição da Festa da Castanha, entre os dias 1 e 4 de Novembro.


Programa:

Permanentemente no local castanha assada (no maior Assador do Mundo)


Dia 1 de Novembro - quinta-feira (feriado)

11h00 – Certificação do”Maior Assador de Castanhas do Mundo”, pelo representante oficial do GUINNESS WORLD RECORDS
15h00 – Cerimónia de abertura da RuralCastaneaVenda e exposição de castanha, Mercado das colheitas de Outono, Stands de produtos de qualidade, Stands de empresas do sector, Exposição de máquinas agrícolas, Restaurantes, Semana Gastronómica da Castanha
15h10 – Animação Musical – Gaiteiros de Vinhais
16h30 – Abertura da Exposição - Projecto Fotográfico -Paisagem do Silêncio – Galeria de Arte Sacra
17h00 – MAGUSTO POPULAR (castanhas e vinho gratuitos)
17h30 – Animação com Caretos de Ousilhão
19h30 – Semana Gastronómica da Castanha (nos restaurantes aderentes)
21h30 – Concerto de Música Portuguesa - XAILE
23h00 – Encerramento



Dia 2 de Novembro - sexta-feira

10h00 – Seminário Ibérico“Promoção e Preservação dos Recursos Ambientais e Naturais” – Aud. Casa do Povo
12h00 - Abertura da RuralCastanea
12h15 – Animação Musical – Gaiteiros de Zido
12h30 - Semana Gastronómica da Castanha (nos restaurantes aderentes)
15h00 – Ateliers e actividades de educação ambiental (orientadas por técnicos)
17h30 – Animação Musical - Gaiteiros da Moimenta
19h30 - Semana Gastronómica da Castanha (nos restaurantes aderentes)
21h00 – Animação Musical “ Concertinas e Desgarradas - CANÁRIO e Amigos”
23h00 - Encerramento


Dia 3 de Novembro, sábado

9h30 – Jornadas do Castanheiro – Aud. Casa do Povo ( programa http://www.arborea.pt/)
11h00 – Abertura da RuralCastanea
11h10 – Animação –“ Caretos de Vila Boa”
12h30 - Semana Gastronómica da Castanha (nos restaurantes aderentes)
13h30 - Animação –“ Caretos de Vila Boa”
14h30 – Circuito Turístico de autocarro “Rota do Castanheiro” (inscrições no secretariado)
15h00 – Teatro - Companhia de Teatro Filandorra
16h30 – Banda de Gaitas de Espanha - Gudiña
17h00 – Concurso da Castanha e de Doçaria de Castanha (recepção dos participantes)
18h00 – Animação Musical – Fanfarra dos Escuteiros de Vinhais
19h30 - Semana Gastronómica da Castanha (nos restaurantes aderentes)
20h00 – Concerto com “Cantus Vetustus” – Cancioneiro Vinhaense
21h30 – Concerto de Musica Popular Portuguesa – VITORINO e Zé CARVALHO
23h00 - Encerramento


Dia 4 de Novembro, Domingo

9h30 – Partida do 4ª PASSEIO de BTT – Tour da Castanha (http://www.montesdevinhais.com/)
10h30 – Abertura da RuralCastanea
12h00 – Actuação da Banda de Vinhais
12h30 - Semana Gastronómica da Castanha (nos restaurantes aderentes)
12h30 – Cerimónia de entrega de prémios dos Concursos
14h30 – Animação Musical com Ranchos Folclóricos
15h30 – Prova de Perícia de Tractores
19h00 - Encerramento

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Plano de Ordenamento do P. N. Montesinho - Discussão Pública


Encontra-se em fase de discussão pública o Plano de Ondenamento do Parque Natural de Montesinho. Entre 4 de Setembro e 17 de Outubro poderá dar o seu contributo para garantir um futuro mais promissor ao parque.
Para mais informações consulte: http://portal.icnb.pt/ICNPortal/vPT/Artigos/Files/NOVOS+PLANOS+DE+ORDENAMENTO.htm

Pode utilizar este espaço para opinar sobre a presente proposta de ordenamento.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Os Lameiros são uma das maravilhas do Nordeste Transmontano

A agricultura, a principal actividade económica que se desenvolve no PNM, seguiu com métodos ancestrais até há bem pouco tempo.
Esta actividade tão dependente do meio envolvente, tem obviamente muitas particulares neste local, produto da inter relação: cultura (Homem), clima, solo, relevo, fauna, flora.
A criação animal que predomina nesta área é a de bovinos, ovinos e caprinos. Com o desenvolvimento desta actividade há milhares de anos, foram criados campos de cultivo e pastagens, os chamados lameiros, tema deste artigo.


Os lameiros existem apenas no Norte de Portugal, essencialmente em Trás-Os-Montes (oeste, norte e nordeste), bem como regiões limítrofes da Galiza e Castela e Leão.
Os lameiros, nome desconhecido para a maioria das pessoas, não são mais do que pastagens permanentes que se estendem geralmente por vales, sendo providos de um sistema de rega tradicional que utiliza a força da gravidade para conduzir a água proveniente dos cursos de água ou de nascentes. A abundância destes correlaciona-se com a pluviosidade relativamente abundante, acima dos 700-800mm anuais. Podem tanto encontrar-se nas margens de rios, ricas em depósitos de aluvião, onde predomina o cascalho e a areia, ou em vales mais pequenos, sem um curso de água permanente. Estes últimos, podem ser relativamente secos, onde a fonte de água são as nascentes, ou pelo contrário, pantanosos e ricos em depósitos aluvionares, onde predomina matéria orgânica e lamas (silte e argila).
Esse termo, lameiro, é também designativo, em ecologia, do biótopo que lhe corresponde, pois a sua remota origem a partir de galerias ripícolas (onde predominava o freixo), entretanto parcialmente desarborizadas levou a que numerosas espécies de plantas e animais se adaptassem a este novo meio e se tornassem, de tal forma, dependentes deste que agora correm o risco de se extinguirem com o progressivo abandono e imediata reflorestação (retoma da sucessão ecológica). Desta forma, o êxodo rural ou as novas apostas agrícolas das últimas décadas, se por um lado estão a dar novas oportunidades a algumas espécies, também estão a por em risco outras.


Este habitat ou biótopo, se preferirem, sofre alterações significativas ao longo do ano, resultado do clima, das espécies adaptadas a este e da intervenção humana (Isto será tratado no próximo artigo onde falarei da colheita do feno).
O clima da região é bastante complexo, tem características comuns aos climas temperado marítimo, continental, mediterrânico e de altitude, com extremos de temperaturas entre os +40-42ºC e os -12 a -15ºC, com pluviosidade entre os 600mm e os 1600mm, dependendo da altitude e interioridade.
É possível encontrar lameiros com mais de quarenta espécies de plantas, incluindo diversos endemismos e plantas com elevado estatuto de protecção. A par com gramíneas e trevos, surgem orquídeas como a erva-língua Serapias lingua e o satirião-real Dactilorrhyza maculata, a rara Paradisea lusitanica, a Ajuga pyramidalis ssp. meonantha e o tomilho Thymus pulegioides.
Diversos roedores e insectívoros como o rato-cego Microtus lusitanicus e o rato-dos-lameiros Arvicola terrestris fazem dos lameiros os seus habitats preferenciais. Esta última espécie, em Portugal, pensa-se ser exclusiva dos lameiros de altitude do PNM. A petinha-ribeirinha Anthus spinoletta, a cegonha-negra Ciconia nigra, os tartaranhões Circus cyaneus e Circus pygargus ou o lagarto-de-água Lacerta schreiberi, espécies animais de relevância conservacionista, também são utilizadores frequentes destes prados.

Os lameiros têm também o papel fundamental de proteger o solo da erosão, contribuir para o ciclo da água e regularização das respectivas bacias hidrográficas, reduzir a propagação dos incêndios florestais, sendo culturas com um baixo nível de consumo de químicos e de um elevado valor paisagístico.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Mexilhão-de-rio do norte tem o seu último refúgio no Parque Natural de Montesinho


O mexilhão-de-rio do norte, Margaritifera margaritifera, é um habitante quase desconhecido de Portugal, chegando a ser dado como extinto em Portugal (1986), apresenta populações estáveis e de dimensão razoável no PNM e regiões limítrofes.
Esta espécie terá sido muito abundante na região holárquica (Norte de Europa, Eurásia e Nordeste Americano), bem como em Porugal (bacia do Douro, essencialmente), contudo sofreu uma regressão considerável (cerca de 90%) no último século, devido à acção do Homem.
A descoberta nos rio Rabaçal, Mente e Tuela (rios que atravessam a parte ocidental do PNM) foi um acontecimento sem dúvida importante a nível europeu. (Embora descobertos pela ciência, são conhecidos, desde sempre, pelas populações locais).
Para além dos rios portugueses já referidos, existe nos rios: Cávado, Neiva e Paiva, onde existem escassos espécimes, sendo a sua extinção iminente se nada for feito.
M. margaritifera tem uma particularidade muito interessante: dependem directamente de certos peixes para sua sobrevivência, uma vez que as formas larvares (gloquídios) parasitam salmonídios, principalmente Salmo salar e Salmo trutta fario. Fixam-se às guelras destes, onde sofres várias metamorfoses, até que se soltam do peixe e continuam a sua vida no local onde caem. Esta fase parasita é, sem dúvida, importante para o desenvolvimento nessa fase precoce e para a disseminação da espécie. Assim uma regressão de Salmonídios, numa área de coexistência, produz um risco na sobrevivência de M. margaritifera. Outro facto interessante é a sua grande longevidade, cujos indivíduos podem atingir 140 anos ou mais.
Além desta espécie de bivalves, existe nestes rios uma outra: o mexilhão-de-rio pequeno (Unio Crassus), a qual é também abundante noutras regiões do país.

Requisitos ecológicos:

Habitat: Os bivalves de água doce têm, na sua maioria, tolerância muito reduzida à salinidade. Habitam toda uma variedade de habitats de água doce, desde lagos e charcas até rios e valas, enterrando-se total ou parcialmente no substrato arenoso ou de cascalho. O tipo de substrato do leito do rio é extremamente importante, em particular para os jovens, que vivem enterrados e necessitam de oxigénio, determinando as áreas de ocorrência onde a espécie pode sobreviver. M. margaritifera prefere ambientes lóticos, nunca tendo sido encontrada em regime lêntico. Ocorre geralmente a temperaturas inferiores a 20ºC e em águas com pH próximo de 7 e evita águas com baixo grau de oxigénio. É extremamente intolerante a qualquer tipo de poluição.

Alimentação: Todos os bivalves de água doce se alimentam filtrando a água por um sistema de cílios, sendo a sua dieta constituída por detritos e plancton. Em condições óptimas, os bivalves atingem densidades elevadas e são então eles próprios determinantes da qualidade de água, devido ao volume que filtram, sendo um indicador da boa qualidade da água.

Reprodução: Atingem a maturidade sexual entre os 7-20 anos. Espécie dióica, mas existem vários relatos de hermafroditismo, em situações em que a densidade populacional caia baixo de um valor crítico. A gravidez dura 2-3 meses, desde Junho, e a fase larvar inicia-se em Agosto, tendo uma duração que vai de várias semanas até 10 meses,dependendo da temperatura.


Principais ameaças:

  • resultante de descargas de efluentes, dado ser uma espécie muito sensível a alterações das propriedades da água;

  • a construção de barragens e açudes provoca a conversão de um sistema lótico em lêntico, absolutamente inadequado à sobrevivência de M. margaritifera. A eutrofização e alteração dos parâmetros físico-químicos da água (nomeadamente aumento de temperatura da água, diminuição do oxigénio dissolvido e alteração de pH) que se verificam na grande maioria de albufeiras, tornam estas áreas impróprias como habitat desta espécie, que nunca foi encontrada em regime lêntico. Provocam também fragmentação do habitat, separando uma população em pequenos fragmentos que muitas vezes não subsistem isolados. As barragens e açudes restringem frequentemente a maioria das trutas a montante das mesmas, levando à extinção de M. margaritifera a jusante;

  • a regularização de sistemas hídricos - nomeadamente através da transformação dos cursos de água em valas artificiais com a uniformização do substrato, no intuito de melhorar o escoamento hídrico –leva à modificação drástica do leito do rio, à destruição total da mata ripícola e da vegetação aquática e à reestruturação artificial das margens, provocando a homogeneização do habitat, eliminando a alternância das zonas de remanso e de rápidos, essenciais para a sobrevivência dos bivalves e para o refúgio, reprodução e alimentação dos peixes hospedeiros das suas larvas;

  • o desaparecimento dos hospedeiros das larvas de M. margaritifera, os membros da família Salmonidae, nomeadamente Salmo salar e Salmo trutta fario. As alterações do habitat dos hospedeiros funcionam como ameaça também para M. margaritifera. De referir que, em muitos países europeus, esta é a principal ameaça à espécie, pelo que tudo o que afecte os salmonídeos;

  • quando da extracção de materiais inertes, os bivalves, que se enterram na areia, são removidos, podendo ser destruída toda uma população. Pelas alterações da morfologia do leito do rio e destruição da vegetação ripícola que esta actividade implica, são igualmente afectados os peixes hospedeiros, no que respeita ao abrigo, alimentação e desova, sendo particularmente grave se efectuada nas zonas e épocas de desova da espécie. Durante os trabalhos de extracção há ainda um elevado aumento da turbidez da água num troço considerável a jusante, o que pode causar mortalidades importantes na ictiofauna, por provocar a asfixia dos peixes (devido à deposição de partículas nas guelras) e a colmatação das suas posturas. O aumento da turbidez é também responsável pela deposição de sedimentos finos que colmatam o substrato, impedindo o desenvolvimento dos bivalves juvenis;

  • a introdução de espécies exóticas de peixes restringem o número de espécies autóctones, hospedeiros das larvas de M. margaritifera. As espécies exóticas de lagostim alimentam-se dos estádios juvenis e adultos jovens desta espécie, e as espécies exóticas de bivalves competem directamente com M. margaritifera.


Situação nos rios Rabaçal, Mente e Tuela:

  • no rio Rabaçal estima-se que existam mais de 1000 000 exemplares, distribuídos por cerca de 63Km;

Rio Rabaçal

  • no rio Mente estima-se a existência de 22 000 distribuídos por 8 Km (este rio é afluente do Rabaçal e, portanto a populações dos 2 rios são na verdade uma única, tal população é de certeza a maior população ibérica e provavelmente a maior população europeia);

  • no rio Tuela estima-se a existência de cerca de 50 000 espécimes numa extensão de 26 Km.

  • Estes números animadores datam de uma altura anterior à construção de 2 barragens (Rebordelo e Bouçoais) no rio Rabaçal, que destruiu quase um terço da população do rio Rabaçal e praticamente toda do Mente, uma vez que uma das barragens foi construída imediatamente a jusante da confluência destes 2 rios. Tal local da construção, foi mal planeado, pois causou o dobro de impacto ambiental.

Barragem do rio Rabaçal

Como neste país tudo fala mais alto que o ambiente, os estudos de impacto ambiental não valeram de nada, ao que parece na altura desconhecia-se a existência de tal espécie naquela zona até à data de aprovação do processo e o projecto andou para a frente e nem houve uma piedosa associação ambientalista que viesse reclamar a defesa de tais bivalves.
A barragem que se encontra a norte tem sofrido problemas sucessivos e já foi esvaziada por duas vezes, neste momento volta a encontrar-se vazia. Convido agora quem estiver interessado em conhecer o impacto da barragem sobre estes bivalves, a visitar aquela área.
O principal factor que porá em risco a restante população será a construção de mais barragens: numa consulta no site do INAG reparei que havia um projecto de construção para o rio Mente.

Afinal, existem rios transmontanos com a mesma qualidade que o ainda livre e mais conhecido - rio Sabor, é pena serem mal conhecidos. Estes rios (Mente e Rabaçal) ainda permanecem naturais a montante destas barragens por uma extensão de quase 60km até às suas nascentes nas serras de Espanha. A sua magnífica biodiversidade ainda será motivo de abordagem neste blog, existem extensas áreas naturais ou semi-naturais nas suas margens e nas suas encostas, talvez até hajam espécies não descritas ou pelo menos não assinaladas naquela área, essencialmente no que respeita à flora. Tenho dedicado algum tempo, como amador e penso já ter colhido frutos.
Espero que tenha sido útil esta informação.
Como só se pode conservar aquilo que se conhece, então vamos conservar estes rios, a partir de agora já os conhecemos um pouco mais...