Esta actividade tão dependente do meio envolvente, tem obviamente muitas particulares neste local, produto da inter relação: cultura (Homem), clima, solo, relevo, fauna, flora.
A criação animal que predomina nesta área é a de bovinos, ovinos e caprinos. Com o desenvolvimento desta actividade há milhares de anos, foram criados campos de cultivo e pastagens, os chamados lameiros, tema deste artigo.
Os lameiros existem apenas no Norte de Portugal, essencialmente em Trás-Os-Montes (oeste, norte e nordeste), bem como regiões limítrofes da Galiza e Castela e Leão.
Os lameiros, nome desconhecido para a maioria das pessoas, não são mais do que pastagens permanentes que se estendem geralmente por vales, sendo providos de um sistema de rega tradicional que utiliza a força da gravidade para conduzir a água proveniente dos cursos de água ou de nascentes. A abundância destes correlaciona-se com a pluviosidade relativamente abundante, acima dos 700-800mm anuais. Podem tanto encontrar-se nas margens de rios, ricas em depósitos de aluvião, onde predomina o cascalho e a areia, ou em vales mais pequenos, sem um curso de água permanente. Estes últimos, podem ser relativamente secos, onde a fonte de água são as nascentes, ou pelo contrário, pantanosos e ricos em depósitos aluvionares, onde predomina matéria orgânica e lamas (silte e argila).
Esse termo, lameiro, é também designativo, em ecologia, do biótopo que lhe corresponde, pois a sua remota origem a partir de galerias ripícolas (onde predominava o freixo), entretanto parcialmente desarborizadas levou a que numerosas espécies de plantas e animais se adaptassem a este novo meio e se tornassem, de tal forma, dependentes deste que agora correm o risco de se extinguirem com o progressivo abandono e imediata reflorestação (retoma da sucessão ecológica). Desta forma, o êxodo rural ou as novas apostas agrícolas das últimas décadas, se por um lado estão a dar novas oportunidades a algumas espécies, também estão a por em risco outras.
Este habitat ou biótopo, se preferirem, sofre alterações significativas ao longo do ano, resultado do clima, das espécies adaptadas a este e da intervenção humana (Isto será tratado no próximo artigo onde falarei da colheita do feno).
O clima da região é bastante complexo, tem características comuns aos climas temperado marítimo, continental, mediterrânico e de altitude, com extremos de temperaturas entre os +40-42ºC e os -12 a -15ºC, com pluviosidade entre os 600mm e os 1600mm, dependendo da altitude e interioridade.
É possível encontrar lameiros com mais de quarenta espécies de plantas, incluindo diversos endemismos e plantas com elevado estatuto de protecção. A par com gramíneas e trevos, surgem orquídeas como a erva-língua Serapias lingua e o satirião-real Dactilorrhyza maculata, a rara Paradisea lusitanica, a Ajuga pyramidalis ssp. meonantha e o tomilho Thymus pulegioides.
Diversos roedores e insectívoros como o rato-cego Microtus lusitanicus e o rato-dos-lameiros Arvicola terrestris fazem dos lameiros os seus habitats preferenciais. Esta última espécie, em Portugal, pensa-se ser exclusiva dos lameiros de altitude do PNM. A petinha-ribeirinha Anthus spinoletta, a cegonha-negra Ciconia nigra, os tartaranhões Circus cyaneus e Circus pygargus ou o lagarto-de-água Lacerta schreiberi, espécies animais de relevância conservacionista, também são utilizadores frequentes destes prados.
Os lameiros têm também o papel fundamental de proteger o solo da erosão, contribuir para o ciclo da água e regularização das respectivas bacias hidrográficas, reduzir a propagação dos incêndios florestais, sendo culturas com um baixo nível de consumo de químicos e de um elevado valor paisagístico.





