sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Breve descrição do PNM / Montanhas que marcam...um relato pessoal

O Parque Natural de Montesinho é sumptuoso em contrastes, que se denotam ao longo das estações, de oeste para leste, de norte para sul, da montanha para o vale...pode ser confirmada por uma caminhada de escassos quilómetros. Situado na transição das regiões biogeográficas Euro-siberiana e Mediterrânica, numa zona de fraca densidade populacional, é habitado desde há milénios por gentes que, por dependerem directamente da Natureza, sempre a souberam respeitar, criando-se uma magnífica simbiose, não é pois de estranhar que equi exista uma enorme biodiversidade, com importância a nível europeu. Com mais de 160 espécies de aves, 110 delas nidificantes, 70% das espécies de Mamíferos terrestres ocorrentes em Portugal, apresentando cerca de 10% destas espécies estatuto de ameaçado no Livro Vermelho dos Vertebrados Portugueses. O ameaçado lobo-ibérico apresenta aqui o seu refúgio, a toupeira-de-água Galemys pyrenaicus, beneficiando da ausência de barragens nos rios do parque, apresenta as maiores populações nacionais. Rato-dos-lameiros Arvicola terres é um desconhecido no resto do país; veados e corços marcam presença quase obrigatória em qualquer caminhada. Espécies emblemáticas como a águia-real e a cegonha-negra atestam o valor faunístico. Raras borboletas, são exclusivas do Nordeste Transmontano, como as espécies Lycaena virgaureae, Brenthis daphne, Boloria dia e Aphantopus hyperanthu. É este o último refúgio do mexilhão-de-rio do norte, já abordado neste blogue.
Bosques climácicos de Quercus pyrenaica e Quercus ilex rotundifolia, formam mosaicos com soutos e giestais. Numerosas plantas raras têm aqui uma elevada densidade de distribuição. Relíquias como a Armeria eriophylla, a vulnerária Anthyllis sampaiana, a gramínea Avenula pratensis ssp. lusitanica, a violeta-de-pastor Linaria aeruginea, o feto Notholaena marantae ssp. marantae e a santolina Santolina semidentata, são exclusivas da região, crescendo apenas em afloramentos de rochas ultrabásicas.
Aguardo o regresso do velho Urso-Pardo Ibérico, que deixou cá a sua marca, não com as garras, mas com a sua índole respeitável que motivou a introdução de topónimos como, Vilar de Ossos (aldeia do concelho de Vinhais), que teve a seguinte progressão: ossos-ussos-ursos (lat. urso, ossos era um termo arcaico, em espanhol diz-se osos). A sua descida a par de um gigante dos céus, o Quebra-Ossos, a partir dos imponentes Montes Cantábricos, era a consagração máxima.
Tais montanhas são tão majestosas, mas tão agrestes...a alvura dos seus cumes ofusca o olhar obstinado de uma criança prodigiosa que num dia frio e soalheiro de Inverno, não temendo o vento cortante, quer ver mais além! O horizonte é esplendoroso, mas o que é que haverá para além dessa barreira temível pelo mais corajoso ser humano? Essa foi uma questão que levantei bem cedo, se o horizonte era fascinante, não menos seria o que estava além montanhas, sempre tive esse sonho de saber o que se escodia para lá. Mas não sou, com certeza, o único transmontano a ter esse sonho, por exemplo o Prof. Adriano José Alves Moreira (Presidente da Academia de Ciências de Lisboa), tinha o mesmo sonho quando contemplava a serra de Bornes, da sua aldeia natal. Em todo o mundo espero que haja quem procure o que está além do horizonte, seja ele, montanhas, oceano, arranha-ceús, árvores, planícies...ou o firmamento. Esse meu sonho, esse ímpeto por descobrir o que insistentemente se escondia atrás do aparentemente evidente e redundante, como que à espera que alguém o descobrisse, começou a generalizar-se e a fazer parte da minha vida. Talvez estas montanhas tivessem alguma influência no que sou hoje, talvez tivesse já uma tendência para ser assim, hoje já sei o que há por de trás do horizonte magnífico destas montanhas, há outros horizontes magníficos, que escondem outros ainda mais deslumbrantes, e assim sucessivamente...enfim, a delicada teia do conhecimento humano vai-se tecendo infindavelmente reflectindo a fractalidade do Universo.

Victor Alves

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