segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Reflexões sobre o futuro de Montesinho e Plano de Ordenamento Proposto

Tendo consciência que qualquer forma ou instrumento de transmissão de conhecimento ou opinião, como um blog, qualquer que seja o seu conteúdo causará sempre algum impacto no receptor. Havendo milhares de receptores a receber, interpretar e transmitir, gera-se uma bola de neve que, em última análise, tem repercussões na sociedade. Posto isto, como blogger sinto que é um dever cívico fazer uma abordagem de temas primordiais para o Parque Natural de Montesinho - o actual Plano de Ordenamento, segundo o meu ponto de vista pessoal, como habitante do Parque e como defensor de uma harmonia socio-economico-ambiental.
Parques eólicos:
tenho uma posição contra.
Razões:
1º - Morte de aves e morcegos:
pelo choque com as pás das eólicas em movimento. Sendo esta área geográfica um local rico em espécies em risco de extinção, como a águia-real, a cegonha-negra, entre outras, cujas populações têm um baixo número de indivíduos e a densidade populacional é escassa; bem como várias espécies de morcegos.
2º - Destruição de habitats:
a construção de caminhos que ligam os aerogeradores entre si, fragmenta os habitats e facilita o acesso das pessoas. Sendo que os locais de implantação dos aerogeradores, são os mais sensíveis e mais ricos em biodiversidade.
3º - Poluição acústica
4º - Poluição visual:
embora os parques eólicos sejam apreciados pela sua imponência e domínio sobre a paisagem, as questões de estética ou expressão artística devem ficar em terceiro plano quando se trata da dinâmica Homem-Ambiente num lugar onde se pretende que os valores naturais dominem e, para isso, até se definem regras sociológicas (legislação) para tal efeito. O Homem tem de deixar o seu "egocentrismo genético" de lado e ficar na plateia como observador, a sua presença só deverá ocorrer para restabelecer o equilíbrio ecológico anteriormente derrubado pelo próprio.
3º - Alto potencial para um turismo sustentável na ausência de eólicas
Uma Paisagem como a de Montesinho que conhecemos hoje, só fará sentido e só será apreciada, enquanto estiver livre de eólicas. Num mundo onde a pressão humana é tão forte e a destruição segue a uma ritmo tão acelerado, cada vez mais são apreciados os refúgios naturais e seminaturais, os quais podem ser "explorados" só por um turismo sustentável nesta era do turismo global. Portanto, esta pode ser uma boa alternativa de futuro para as populações dos concelhos de Bragança e Vinhais. Noto, contudo, que a forma de pensar das populações e dos autarcas continua muito longe desta linha, invocando que o desenvolvimento só se fará à custa de barragens e parques eólicos. Ora Trás-Os-Montes já tem dezenas de barragens e o desenvolvimento que trouxeram é nulo. O interior tem sido, ao longo destas dezenas de anos, sucessivamente discriminado, todos nós sabemos e conhecemos os resultados da diferença de investimento entre o litoral e o interior, a esmagadora maioria desses biliões de euros provenientes da União Europeia foram directos para o litoral. Se o governo quisesse, pela primeira vez, favorecer o interior não o faria com parque eólicos, nem com barragens, os quais são mais uma vez para benefício do litoral superpovoado.
Penso pois, que temos de mudar rapidamente a nossa forma de agir e investir num turismo sustentável, investir no futuro! E esta mensagem deve ser assimilada em primeira instância pelos autarcas.
4º - Falsas promessas de postos de trabalho:
como sabemos a construção de um parque eólico fornece postos de trabalho temporários e a maior parte deles pouco diferenciados.

Em relação à construção de novas vias de comunicação:
os municípios do Parque necessitam de melhores vias de comunicação com Espanha, ligações essas de grande importância para o desenvolvimento de Bragança e Vinhais, que só fazem sentido se se estabelecerem a norte com a A-52, as quais têm de atravessar a totalidade do Parque. Recordo que Madrid está a 3h de distância e as cidades de Galiza e de Castela e Leão a 2h. Ora, o Plano de Ordenamento proposto não interdita, à partida, a sua execução, apenas a condiciona, estando sujeita a aprovação prévia, no qual concordo. Penso que é possível construir um Itinerário Principal, o qual não me parece que cause grandes impactos, se o traçado se fizer por zonas menos sensíveis e importantes em termos ecológicos e se forem construídos corredores ecológicos; se tal não for possível deve-se fazer uma remodelação dos principais acessos, com faixas largas e curvas pouco acentuadas de modo a ser mais rápido e cómodo fazer este percurso.
Existem estradas no parque que precisam recuperação urgente, as quais serviriam de vias secundárias de acesso a Espanha e produziriam uma melhor mobilidade dentro do Parque.
Recuperação do perfil arquitectónico tradicional das habitações
Um aspecto que o Plano de Ordenamento não fala é: a importância da manutenção dos traçados arquitectónicos tradicionais dos edifícios. A maior parte das aldeias estão muitos descaracterizadas, penso que embora a aplicação de uma legislação seja exagerada, a gestão do parque também devia passar por um apoio informativo, técnico e/ou financeiro, por forma a recuperar o perfil arquitectónico destas casas, que enriquecem a região.

2 comentários:

Anónimo disse...

Parabens pelo blog. Esperemos que nao se "perca" como outros. Para isso sera importante o contributo lucido dos leitores.

Tiago Afonso disse...

Sem dúvida tudo o que foi escrito neste post tem todo e total fundamento.

É preciso manter o menos humanizado possível as áreas selvagens do Parque.

É preciso apostar no turismo rural.
É preciso fazer perceber os autarcas da região do Parque, que o futuro passa pelo turismo, tal como em outros Parques Naturais e Nacionais portugueses.

É preciso publicitar o Parque.
É preciso criar infra-estruturas no Parque.

É preciso alguém fazer algo pelo Parque, e fundamentalmente é preciso o nosso governo alterar a estratégia para o interior do país.