quarta-feira, 4 de julho de 2007

Os Lameiros são uma das maravilhas do Nordeste Transmontano

A agricultura, a principal actividade económica que se desenvolve no PNM, seguiu com métodos ancestrais até há bem pouco tempo.
Esta actividade tão dependente do meio envolvente, tem obviamente muitas particulares neste local, produto da inter relação: cultura (Homem), clima, solo, relevo, fauna, flora.
A criação animal que predomina nesta área é a de bovinos, ovinos e caprinos. Com o desenvolvimento desta actividade há milhares de anos, foram criados campos de cultivo e pastagens, os chamados lameiros, tema deste artigo.


Os lameiros existem apenas no Norte de Portugal, essencialmente em Trás-Os-Montes (oeste, norte e nordeste), bem como regiões limítrofes da Galiza e Castela e Leão.
Os lameiros, nome desconhecido para a maioria das pessoas, não são mais do que pastagens permanentes que se estendem geralmente por vales, sendo providos de um sistema de rega tradicional que utiliza a força da gravidade para conduzir a água proveniente dos cursos de água ou de nascentes. A abundância destes correlaciona-se com a pluviosidade relativamente abundante, acima dos 700-800mm anuais. Podem tanto encontrar-se nas margens de rios, ricas em depósitos de aluvião, onde predomina o cascalho e a areia, ou em vales mais pequenos, sem um curso de água permanente. Estes últimos, podem ser relativamente secos, onde a fonte de água são as nascentes, ou pelo contrário, pantanosos e ricos em depósitos aluvionares, onde predomina matéria orgânica e lamas (silte e argila).
Esse termo, lameiro, é também designativo, em ecologia, do biótopo que lhe corresponde, pois a sua remota origem a partir de galerias ripícolas (onde predominava o freixo), entretanto parcialmente desarborizadas levou a que numerosas espécies de plantas e animais se adaptassem a este novo meio e se tornassem, de tal forma, dependentes deste que agora correm o risco de se extinguirem com o progressivo abandono e imediata reflorestação (retoma da sucessão ecológica). Desta forma, o êxodo rural ou as novas apostas agrícolas das últimas décadas, se por um lado estão a dar novas oportunidades a algumas espécies, também estão a por em risco outras.


Este habitat ou biótopo, se preferirem, sofre alterações significativas ao longo do ano, resultado do clima, das espécies adaptadas a este e da intervenção humana (Isto será tratado no próximo artigo onde falarei da colheita do feno).
O clima da região é bastante complexo, tem características comuns aos climas temperado marítimo, continental, mediterrânico e de altitude, com extremos de temperaturas entre os +40-42ºC e os -12 a -15ºC, com pluviosidade entre os 600mm e os 1600mm, dependendo da altitude e interioridade.
É possível encontrar lameiros com mais de quarenta espécies de plantas, incluindo diversos endemismos e plantas com elevado estatuto de protecção. A par com gramíneas e trevos, surgem orquídeas como a erva-língua Serapias lingua e o satirião-real Dactilorrhyza maculata, a rara Paradisea lusitanica, a Ajuga pyramidalis ssp. meonantha e o tomilho Thymus pulegioides.
Diversos roedores e insectívoros como o rato-cego Microtus lusitanicus e o rato-dos-lameiros Arvicola terrestris fazem dos lameiros os seus habitats preferenciais. Esta última espécie, em Portugal, pensa-se ser exclusiva dos lameiros de altitude do PNM. A petinha-ribeirinha Anthus spinoletta, a cegonha-negra Ciconia nigra, os tartaranhões Circus cyaneus e Circus pygargus ou o lagarto-de-água Lacerta schreiberi, espécies animais de relevância conservacionista, também são utilizadores frequentes destes prados.

Os lameiros têm também o papel fundamental de proteger o solo da erosão, contribuir para o ciclo da água e regularização das respectivas bacias hidrográficas, reduzir a propagação dos incêndios florestais, sendo culturas com um baixo nível de consumo de químicos e de um elevado valor paisagístico.

2 comentários:

bio X disse...

O blog está muito interessante. Parabéns!!
Também tenho um blog sobre o ambiente e gostava que o vissitasses e comentasses. Somos o grupo bio_X e pretendemos alertar e sensibilizar as pessoas para a actual degradação do ambiente.
Será que nos poderias pôr como link e ajudar na divulgação do blog??
Se quiseres entrar em contacto connosco o nosso e-mail é bioxesas@gmail.com e o blog é http://biox6.blogspot.com/
Obrigada pela atenção

bio_X

Andreiageo disse...

Ainda que tenha nascido em meio urbano, tenho grande carinho pela paisagem do interior norte de Portugal devido a possuir raízes familiares no Alto Barroso. Por isso, agradeço a merecida homenagem ao património dos lameiros.

Saudações barrosãs,

Andreia.