quinta-feira, 10 de maio de 2007

Mexilhão-de-rio do norte tem o seu último refúgio no Parque Natural de Montesinho


O mexilhão-de-rio do norte, Margaritifera margaritifera, é um habitante quase desconhecido de Portugal, chegando a ser dado como extinto em Portugal (1986), apresenta populações estáveis e de dimensão razoável no PNM e regiões limítrofes.
Esta espécie terá sido muito abundante na região holárquica (Norte de Europa, Eurásia e Nordeste Americano), bem como em Porugal (bacia do Douro, essencialmente), contudo sofreu uma regressão considerável (cerca de 90%) no último século, devido à acção do Homem.
A descoberta nos rio Rabaçal, Mente e Tuela (rios que atravessam a parte ocidental do PNM) foi um acontecimento sem dúvida importante a nível europeu. (Embora descobertos pela ciência, são conhecidos, desde sempre, pelas populações locais).
Para além dos rios portugueses já referidos, existe nos rios: Cávado, Neiva e Paiva, onde existem escassos espécimes, sendo a sua extinção iminente se nada for feito.
M. margaritifera tem uma particularidade muito interessante: dependem directamente de certos peixes para sua sobrevivência, uma vez que as formas larvares (gloquídios) parasitam salmonídios, principalmente Salmo salar e Salmo trutta fario. Fixam-se às guelras destes, onde sofres várias metamorfoses, até que se soltam do peixe e continuam a sua vida no local onde caem. Esta fase parasita é, sem dúvida, importante para o desenvolvimento nessa fase precoce e para a disseminação da espécie. Assim uma regressão de Salmonídios, numa área de coexistência, produz um risco na sobrevivência de M. margaritifera. Outro facto interessante é a sua grande longevidade, cujos indivíduos podem atingir 140 anos ou mais.
Além desta espécie de bivalves, existe nestes rios uma outra: o mexilhão-de-rio pequeno (Unio Crassus), a qual é também abundante noutras regiões do país.

Requisitos ecológicos:

Habitat: Os bivalves de água doce têm, na sua maioria, tolerância muito reduzida à salinidade. Habitam toda uma variedade de habitats de água doce, desde lagos e charcas até rios e valas, enterrando-se total ou parcialmente no substrato arenoso ou de cascalho. O tipo de substrato do leito do rio é extremamente importante, em particular para os jovens, que vivem enterrados e necessitam de oxigénio, determinando as áreas de ocorrência onde a espécie pode sobreviver. M. margaritifera prefere ambientes lóticos, nunca tendo sido encontrada em regime lêntico. Ocorre geralmente a temperaturas inferiores a 20ºC e em águas com pH próximo de 7 e evita águas com baixo grau de oxigénio. É extremamente intolerante a qualquer tipo de poluição.

Alimentação: Todos os bivalves de água doce se alimentam filtrando a água por um sistema de cílios, sendo a sua dieta constituída por detritos e plancton. Em condições óptimas, os bivalves atingem densidades elevadas e são então eles próprios determinantes da qualidade de água, devido ao volume que filtram, sendo um indicador da boa qualidade da água.

Reprodução: Atingem a maturidade sexual entre os 7-20 anos. Espécie dióica, mas existem vários relatos de hermafroditismo, em situações em que a densidade populacional caia baixo de um valor crítico. A gravidez dura 2-3 meses, desde Junho, e a fase larvar inicia-se em Agosto, tendo uma duração que vai de várias semanas até 10 meses,dependendo da temperatura.


Principais ameaças:

  • resultante de descargas de efluentes, dado ser uma espécie muito sensível a alterações das propriedades da água;

  • a construção de barragens e açudes provoca a conversão de um sistema lótico em lêntico, absolutamente inadequado à sobrevivência de M. margaritifera. A eutrofização e alteração dos parâmetros físico-químicos da água (nomeadamente aumento de temperatura da água, diminuição do oxigénio dissolvido e alteração de pH) que se verificam na grande maioria de albufeiras, tornam estas áreas impróprias como habitat desta espécie, que nunca foi encontrada em regime lêntico. Provocam também fragmentação do habitat, separando uma população em pequenos fragmentos que muitas vezes não subsistem isolados. As barragens e açudes restringem frequentemente a maioria das trutas a montante das mesmas, levando à extinção de M. margaritifera a jusante;

  • a regularização de sistemas hídricos - nomeadamente através da transformação dos cursos de água em valas artificiais com a uniformização do substrato, no intuito de melhorar o escoamento hídrico –leva à modificação drástica do leito do rio, à destruição total da mata ripícola e da vegetação aquática e à reestruturação artificial das margens, provocando a homogeneização do habitat, eliminando a alternância das zonas de remanso e de rápidos, essenciais para a sobrevivência dos bivalves e para o refúgio, reprodução e alimentação dos peixes hospedeiros das suas larvas;

  • o desaparecimento dos hospedeiros das larvas de M. margaritifera, os membros da família Salmonidae, nomeadamente Salmo salar e Salmo trutta fario. As alterações do habitat dos hospedeiros funcionam como ameaça também para M. margaritifera. De referir que, em muitos países europeus, esta é a principal ameaça à espécie, pelo que tudo o que afecte os salmonídeos;

  • quando da extracção de materiais inertes, os bivalves, que se enterram na areia, são removidos, podendo ser destruída toda uma população. Pelas alterações da morfologia do leito do rio e destruição da vegetação ripícola que esta actividade implica, são igualmente afectados os peixes hospedeiros, no que respeita ao abrigo, alimentação e desova, sendo particularmente grave se efectuada nas zonas e épocas de desova da espécie. Durante os trabalhos de extracção há ainda um elevado aumento da turbidez da água num troço considerável a jusante, o que pode causar mortalidades importantes na ictiofauna, por provocar a asfixia dos peixes (devido à deposição de partículas nas guelras) e a colmatação das suas posturas. O aumento da turbidez é também responsável pela deposição de sedimentos finos que colmatam o substrato, impedindo o desenvolvimento dos bivalves juvenis;

  • a introdução de espécies exóticas de peixes restringem o número de espécies autóctones, hospedeiros das larvas de M. margaritifera. As espécies exóticas de lagostim alimentam-se dos estádios juvenis e adultos jovens desta espécie, e as espécies exóticas de bivalves competem directamente com M. margaritifera.


Situação nos rios Rabaçal, Mente e Tuela:

  • no rio Rabaçal estima-se que existam mais de 1000 000 exemplares, distribuídos por cerca de 63Km;

Rio Rabaçal

  • no rio Mente estima-se a existência de 22 000 distribuídos por 8 Km (este rio é afluente do Rabaçal e, portanto a populações dos 2 rios são na verdade uma única, tal população é de certeza a maior população ibérica e provavelmente a maior população europeia);

  • no rio Tuela estima-se a existência de cerca de 50 000 espécimes numa extensão de 26 Km.

  • Estes números animadores datam de uma altura anterior à construção de 2 barragens (Rebordelo e Bouçoais) no rio Rabaçal, que destruiu quase um terço da população do rio Rabaçal e praticamente toda do Mente, uma vez que uma das barragens foi construída imediatamente a jusante da confluência destes 2 rios. Tal local da construção, foi mal planeado, pois causou o dobro de impacto ambiental.

Barragem do rio Rabaçal

Como neste país tudo fala mais alto que o ambiente, os estudos de impacto ambiental não valeram de nada, ao que parece na altura desconhecia-se a existência de tal espécie naquela zona até à data de aprovação do processo e o projecto andou para a frente e nem houve uma piedosa associação ambientalista que viesse reclamar a defesa de tais bivalves.
A barragem que se encontra a norte tem sofrido problemas sucessivos e já foi esvaziada por duas vezes, neste momento volta a encontrar-se vazia. Convido agora quem estiver interessado em conhecer o impacto da barragem sobre estes bivalves, a visitar aquela área.
O principal factor que porá em risco a restante população será a construção de mais barragens: numa consulta no site do INAG reparei que havia um projecto de construção para o rio Mente.

Afinal, existem rios transmontanos com a mesma qualidade que o ainda livre e mais conhecido - rio Sabor, é pena serem mal conhecidos. Estes rios (Mente e Rabaçal) ainda permanecem naturais a montante destas barragens por uma extensão de quase 60km até às suas nascentes nas serras de Espanha. A sua magnífica biodiversidade ainda será motivo de abordagem neste blog, existem extensas áreas naturais ou semi-naturais nas suas margens e nas suas encostas, talvez até hajam espécies não descritas ou pelo menos não assinaladas naquela área, essencialmente no que respeita à flora. Tenho dedicado algum tempo, como amador e penso já ter colhido frutos.
Espero que tenha sido útil esta informação.
Como só se pode conservar aquilo que se conhece, então vamos conservar estes rios, a partir de agora já os conhecemos um pouco mais...

10 comentários:

Anónimo disse...

Excelente post! Muito bom blogue.
De um finalista de direito do Porto, aficionado pela natureza e Montesinho.
Parabens!

(espero,um dia, poder contribuir para o parque ou o ambiente seja pelo direito ou seja de qualquer outra forma)

Venha mais trabalho e alertas..
David Sarmento

bio X disse...

O blog está muito interessante. Parabéns!!
Também tenho um blog sobre o ambiente e gostava que o vissitasses e comentasses. Somos o grupo bio_X e pretendemos alertar e sensibilizar as pessoas para a actual degradação do ambiente.
Será que nos poderias pôr como link e ajudar na divulgação do blog??
Se quiseres entrar em contacto connosco o nosso e-mail é bioxesas@gmail.com e o blog é http://biox6.blogspot.com/
Obrigada pela atenção

bio_X

Marco disse...

Viva. Parabéns pelo artigo. Falta no entanto alguma informação: o Margaritifera margaritifera também se encontra no rio Tâmega
(já referido em vários trabalhos sobre o Alto Tâmega), pelo menos entre Verin (Galiza)e Vidago. Muito provavelmente também ocorrerá no troço de montanha a norte de Verín. Fazem falta estudos sobre esta população.

1 abr
Marco

Victor Alves disse...

Caro Marco a informação que tenho é que esta espécie já existiu no rio Tâmega e o plano de recuperação da espécie passa por reintroduzí-la aí. Se tem algum artigo que realmente ateste a sua existência actualmente no rio Tâmega por favor envie-me.

Abraço

Marco disse...

Olá.
A presença no rio Tâmega foi verificada e fotografada por mim há já alguns anos. Em 2003 juntamente com o Francisco Álvares, fui co-autor do livro "Património Natural do Alto Tâmega e Barroso", onde referimos esta situação. Publicado pela Região de Turismo do alto Tâmega e Barroso.
Posteriomente, nos estudos de impacto ambiental da A24 (antigo IP3), foram também confirmados vários locais de ocorrência. Do lado espanhol também já me indicaram alguns locais da sua presença.

Joaquim Reis disse...

Parabéns por este blog!
Queria apenas alertar para que os mexilhões-de-rio do Alto Tâmega não são da espécie Margaritifera margaritifera. Existem excelentes populações de Anodonta anatina e de Unio pictorum, este ultimo muitas vezes com um morfotipo muito semelhante à Margaritifera. Só é possível distingui-los com segurança através da análise das aberturas exalantes e inalantes, cuja separação é incompleta na Margaritifera, da estrutura dos dentes (A Margaritifera não possui dente lateral ao contrário do Unio), das características do gloquídio ou através de análise genética. Para além disso, o habitat do Alto Tâmega é desadequado à espécie (algo já referido por Nobre , 1941), ao contrário do que acontecia na zona de Amarante, onde a espécie de facto existia. Isto não significa, como é obvio, que na parte média no rio não possam subsistir pequenos nucleos da espécie, embora seja improvável. Tive acesso aos estudos de impacto do Alto Tâmega e a espécie aí registada é o Unio pictorum (a fotografia da face interna das conchas não deixa dúvidas).

Victor Alves disse...

Obrigado Joaquim Reis, por esse esclarecimento.

Anónimo disse...

Post muito interessante.
Penso que a maioria das pessoas desconhecem completamente os bivalves de água doces, e que não têm ideia do impacto que as acções humanas provocam na ecologia das águas doces, em particular dos sistemas lóticos.
Quando visitei a zona do lago da Sanabria, os mexilhões-do-rio são quase um "emblema" e e são "acarinhados" e é pena que isso não aconteça também em Portugal.

Saudações ambientais,

João Carrola (UTAD)

Anónimo disse...

Ola!
Em ponte de sor em portalegre tabem ha algus exemplares

Rocio disse...

Eu acho que se pode sempre ser capaz de ver essas belas paisagens que, sempre que eu posso tentar cozinhar com ingredientes naturais, mas espero que eu possa continuar batendo delivery